03/03/2008

Valor da vida

Escrevo aqui, com revolta de caso, com propriedade para isso, sobre o fato que aconteceu na última sexta-feira, dia 29 de Fevereiro de 2008. Não gosto de retratar fatos reais, mas esse eu quero deixar aqui para todos verem.

Estava eu e minha nobre companheira de carona, a Karina, indo para a faculdade, fugindo de todo trânsito caótico da cidade quando fomos atacados por uma barata. Isso mesmo, uma barata. Na agitação toda parei o carro, desci, procurei o ser repugnante e nada. Até ai tudo corria muito bem, quando de repende, surgem dois seres mais repugnantes que a barata em si. Eram dois “moleques”, não mais que 18 anos, magricelas, vestidos com trajes característicos de quem não vale mais do que uma bala achada no assoalho do ónibus. Um deles tirou uma armada cintura, apontou para mim, e pediu as chaves do carro. Em questão de segundos eu via meu carro ser levado por dois seres que nunca levantaram cedo e não sabem o preço do que levavam. Minha amiga, que ria até o momento do ataque da barata encontrava-se em prantos, um choro sem soluções, sem som.

Fomos a delegacia, fizemos toda a parte burocrática para tentar recuperar o carro e acionar o seguro. Tudo isso levou não mais que uma hora.

As 10 da noite meu celular toca, era a policia dizendo que meu carro foi encontrado. O bom e velho gotamóvel está inteiro, com pequenas avarias no interior, mas meu som, minha mochila e meu projeto de formatura foram levados. Isso mesmo, meu querido e suado projeto de formatura. Eu me pergunto: “o que um ladrãozinho sem escolaridade nenhuma, analfabeto, favelado, vai fazer com tudo aquilo?”. Além de me roubar, apontar uma arma eles ainda ficam com meu projeto apenas para me humilhar e dizer para os outros de sua laia “Era um boy”.

Diante de tudo, eu penso no que as pessoas dizem por ai. Sabe aquele papo de que “não dão oportunidades”. Pois é, diferentemente do que pensam o dois frustrados e incapazes que me assaltaram, eu que aqui escrevo, estudei por onze anos em escolas públicas, trabalhei por mais de três anos no escola da família para poder pagar a faculdade, perdendo meus finais de semana para isso. Levantei cedo todos os dias nos últimos dois anos, e atualmente trabalho a mais de vinte e cinco quilometros de casa, atravessando uma boa parte de São Paulo. Sempre batalhei para ter minhas coisas, luto para comprar minhas roupas, meu som do carro, meu computador. Pago a cerveja que eu bebo. Pago minhas baladas. Não vivo na sombra de ninguém. Não levo a vida fácil que esses dois seres desprezíveis levam. A inveja deles diante de minhas conquistas faz com que pessoas caridosas, por assim dizer, chamem essas criaturas de “excluídos”. Eu chamo de ladrão, escória, lixo humano. Enquanto eu batalho pra ter minhas coisas, eles em menos de 5 minutos tem em mãos tudo que eu levei meses para conseguir. Então quem é o “coitado” da história?

Concordo que o país é uma merda, e que os governantes dessa baderna toda são os que mais roubam. Mas e daí? Você tem que se espelhar nessas pessoas?

Falta educação, e não educação da escola, e sim dos pais, da família. Mas é difícil esperar muita coisa de uma família que é constituída por uma pai sumido e uma mãe de 17 anos. O brasileiro não pensa, segue o fluxo, se sente um excluído, mas senta no sofá do seu barraco e espera a ajuda de uma cesta básica para almoçar. A velha história do dar a vara para pescar e não o peixe. Mas nesse país de miseráveis, analfabetos, perdedores por natureza, é melhor dar o peixe para não entregar a vida.

É lamentável, ver toda essa imensidão de belezas naturais e capacidade sendo jogada fora por um bando de ovelhas, pastoradas por porcos. Orwell que me desculpe fazer aqui essa paródia pobre, mas válida, sobre esse meu país.

Eu continuarei trabalhando e comprando meus bens, e vivendo do meu jeito, posso não estar cem por cento certo, mas não tiro a conquista de ninguém. Eu quero meu pedaço do pão, que foi conquistado por mim mesmo, e não o do próximo.

Mas enquanto nesse lugar de terras lindas, morar um povo analfabeto de cultura, que ouve a dança do creu, que assiste domingo legal, jornal nacional, e afins, teremos nas ruas marginais armados, tirando a vidas, tirando bens, tirando a dignidade, tirando o direito de ir e vir, tirando a liberdade. Enquanto esse povo continuar se vendendo por um pacote de arroz, enquanto existirem os gananciosos, viveremos nessa grande cela ao céu aberto. Reclamaremos de todas as injustiças, mas dormiremos em nossas camas sem fazer nada. Falaremos alto e não daremos nossa cara a tapa. Escreverei mais um milhão de textos pobres como esse, e mesmo assim verei pessoas sendo mortas e roubadas e humilhadas e nada vai mudar.

Fico descrente de tudo. Me sinto passivo, um coelho cercado por raposas famintas. Até quando eu terei de correr e me esconder?

Eu quero ter o direito de andar pelas ruas da minha cidade sem ter de olhar para trás para saber se alguém não esta me seguindo. Quero poder parar meu carro na rua e poder deixa-lo ali, sem ter que pagar um estacionamento para protege-lo. Quero ter certeza que vou sair de casa e para lá voltarei ao final do dia.

Brasil, meu país de analfabetos culturais, de excluídos cínicos.

Tudo isso é deprimente e lamentável.

Aos meus poucos leitores, me desculpem o texto pobre, mas eu precisava desabafar, com toda a minha raiva sem foco.

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