12/12/2007

Cenas do Cotidiano

Sentado em um banco verde de tinta descascada em um parque, um velho deixa o dia passar, observando os pombos que comem sem parar, se irritando com a moça de calças cor de laranjas coladas a pele que passa correndo por ele diversas vezes, um menino passa com seu cachorro, sendo arrastado por ele para dizer a verdade, e o velho sorri. Algumas mães chegam com diversas crianças, que logo estão correndo, e pulando e gritando. As mães conversam, falam sobre o aumento dos alimentos no supermercado, trocam receitas para o jantar, e as crianças brincam e continuam a correr. E o velho observa.

Um menino, não mais que três anos vem andando despreocupadamente em direção ao velho, atraído por uma borboleta de asas vermelhas. Ele vem correndo com suas pernas pequenas e desajeitadas, a borboleta resolve fazer um vôo alto e o menino cai, daquele jeito que as crianças caem. Ele esboça um choro, está a menos de dois metros do velho, a mãe e seu instinto houve sua cria de longe e vem ajudá-lo. O velho se levanta, pega a criança, a faz parar com o choro, e nisso a mãe chega, agradece ao velho, que apenas acena com a cabeça. A criança olha no fundo dos olhos cinzentos do velho, e esse faz umas duas ou três caretas, umas brincadeiras rápidas, e o menino não deixa de fitar os olhos do velho. A mãe meio sem jeito, pega o filho no colo, agradece mais uma vez ao velho, vira as costas e sai ao encontro das demais mães que observavam a cena. A criança e o velho se olham por mais alguns instantes até a borboleta distrair novamente o menino. O velho se senta, e continua a observar, e se irrita quando a menina das calças laranja passa mais uma vez apressada. Dessa vez ele repara que ela tem fones nos ouvidos.

08/12/2007

Ambiental

Acordo cedo, me preparo para mais um dia de trabalho. Abro a porta, saio de casa, e como de costume olho para o céu e fico estático, o céu não era azul era cinza, nada estranho se não fosse o fato de estarmos no meio da primavera. O tempo é quente, abafado, a umidade é baixa. Suo muito dirigindo meu carro. Passo por um ponto onde observo toda a cidade, me sinto em Pequim, não consigo ver nem o sinal do horizonte, até os prédios mais próximos tem uma névoa estranha que lhes encobre os últimos andares. Minha respiração é curta e difícil. Sinto minha cabeça doer.

Ao longe as chaminés despejando uma massa densa de fumaça no infinito de nosso céu já acinzentado. De perto os caminhões, os carros, o papel jogado pela janela, o cigarro que atravessa a rua rolando até o meio-fio. No rio sem peixes, uma garça solitária se alimenta de lixo. O mesmo rio trocou seus afluentes por tubulações de esgoto.

Em algum lugar o zunido de uma moto-serra rasga a mata e mata por onde ela passa. Queimando o solo fértil para criar pasto. Enchendo os pulmões de nada em prol de um papel de valor imaginário.

É essa visão que eu tenho de quando olho para o nosso céu desses dias, e isso não tem metáfora alguma. Me encho de tristeza ao ver que o mundo é sufocado pela ganância de um ser ignorante, incapaz de perceber que de nada vale essa riqueza toda se nem ao menos teremos um copo d’água para beber em pouco.

Lá vem o homem e suas máquinas, sua tecnologia, sua mordomia, sua preguiça, seu ócio. Lá vem o homem matando para justificar a vida. Lá vem o homem extraindo, explorando, exigindo de onde não tem mais nada.

Sei que não vou ver esse planeta desértico, mas sei que quando isso acontecer, a culpa também será minha. Eu que aqui escrevendo esse desabafo cansado, não faço nada além disso. Me queixo e me entristeço mas não mexo um dedo em prol de um planeta consciente da necessidade de preservação ambiental.

Não gosto de radicalismo, seria muito mais fácil se fossemos realmente egoístas e que cada um pensasse no próprio bem estar, mas não, somos acomodados e pensamos que se o vizinho não faz nada pelo mundo, eu também não vou fazer, porque afinal de contas de que adianta eu ajudar se o outro atrapalha? Pensamento ridículo esse. Faça sua parte, diz aquele cartaz, e é basicamente isso que eu acho que deveria ser feito. Cada ser humano sobre o planeta deveria fazer sua parte sem pensar no outro ao seu lado.

É vergonhoso ir até a praia e ver o mar antes verde, agora marrom, feio, sem vida. É insultante assistir um noticiário e ver um petroleiro derramando toneladas de petróleo no mar. É insultante ver o ser mais inteligente do planeta destruir seu mais precioso bem.

Meu discurso é batido, coisa velha, já dita de muito tempo. Mas ninguém fez nada. Teve muita gente que tentou, um sincero agradecimento a essas pessoas. Mas e agora? Que tal levantar do sofá e ir até sua lata de lixo e separar o que é reciclável daquilo que não é? Ou concertar aquela torneira que continua a pingar. Ou melhor ainda, porque não parar o país inteiro, e esperar que as indústrias tomem atitudes para parar de poluir e só então voltar a dar lucro para elas? Um pouco de radicalismo não faz mal a ninguém. E uma dose de consciência todo dia pela manhã faz você ter garantia de uma não dor de cabeça amanhã. E eu tenho certeza que na realidade falta é vergonha na cara, como diria a minha avó, a essas pessoas que vivem por ai sem saber por que vivem, sem sequer se dar conta do que está acontecendo, sem olhar um só da para o céu, tristemente cinza.