Questões
fundamentais vem me perturbando nos últimos tempos. São questionamentos básicos
e indispensáveis, porém facilmente suprimidos pelo pensamento tradicional e
doutrinas religiosas e filosóficas. Acordar pela manhã e ter plena certeza da
morte iminente e inevitável me deprime, mesmo sabendo que ainda existe muito
tempo para tal morte chegar se pensarmos na expectativa de vida atual mas da
mesma forma penso que tempo algum me basta. E ainda sim tenho plena consciência
de que a vida eterna proposta pelas religiões é o inferno proposto pelas
mesmas. Não encontro a paz de alma na vida de hoje e não consigo fazer um
prognóstico de encontra-la tão cedo, logo a vida eterna só traria ainda mais
desassossego. Queria mesmo me prender a doutrinas bonitas cheias de fé e
esperança, mas a realidade ao meu redor não me permite. A consciência adquirida
não pode ser esquecida e muito menos ignorada.
A agonia de
pensar na morte de certa forma me conforta por finalmente ter chegado na tão
desejada paz, mas me entristece por motivos óbvios. Chega a ser nauseante.
Pudera eu viver a vida no meio das ilusões cotidianas e satisfações mundanas.
Fui inundado por pensamentos positivos dia desses, já que essa é a única vida
que tenho, devo aproveita-la ao máximo, tirar da vida sua essência, sua alma,
mas eu vejo a vida pela ótica de ser apenas vida, de ver as coisas sem as
mascaras sentimentais que nós mesmos impomos as coisas. Como Caeiro, penso que
a Natureza é apenas o que tem que ser, sem que haja qualquer significado
misterioso nisso tudo. O Universo todo me atrai pelo desconhecido e não pelas
possibilidades. Contemplar estrelas, como fiz no Bonete, não traz aquela
felicidade diante da beleza que isso é, mas traz ainda mais vazio diante da
pequenez da alma humana. Não que não seja linda a nossa via Láctea. Mas ela só
é um emaranhado de estrelas, um lençol fino que nos cobre.
Pudera eu
acreditar no amor. Ah! Esse amor que eu vejo a pessoas jurarem, nada mais que
uma farsa para tapar as agonias e o já citado vazio da alma. Amor não existe,
nem as tais provas de amor como dizem por ai. Acredito sim na paixão, essa sim
existe, devasta, destrói, transborda tudo, mas se vai da mesma forma que veio e
ai deixa os seus rastros de destruição. E são nos momentos de destruição em que
se deve fazer as reflexões mais profundas, as incursões mais perigosas no seu
mais intimo.
Ouvi uma
frase esses dias de uma garota: Não é uma questão de fidelidade, é lealdade.
Foi a frase mais sincera que já ouvi sobre os relacionamentos humanos. E isso
me confortou. A posse do outro estabelecida pelas regras da sociedade atual não
fazem sentido da forma como são. Não há motivos de jurar amor ao outro senão
por respeitar e ter a consideração pelos sentimentos do outro. Mas a fidelidade
é uma ilusão. Assim como a garota não acredito na fidelidade, acredito na
lealdade, no companheirismo, no respeito e não em um juramento divino baseado
em uma castração do que realmente somos.
E ai me pego
perguntando o porquê de seguir fazendo as coisas como sempre faço, buscando objetivos
que não fazem qualquer sentido. Levantando todos os dias para ir ao trabalho
que já nem sei se gosto mais, estudando coisas que já não servem mais para
nada, estando com pessoas simplesmente para esconder a solidão. Solidão essas
que nunca me deixou sozinho (Abu, seu filho de uma puta). E sei que tudo isso
nada mais é que um artifício de autoproteção para o completo vazio da alma. É
melhor enganar-se do que olhar para dentro de si.
Definitivamente
é um aglomerado de questões básicas e sem respostas. Queria ser como os outros
e ficar discutindo futebol, big btother, novela e o caralho a quatro. Queria
casar, ter filhos, ser um gerente frustrado, ter o carro do ano, receber a
família e os amigos para aquele churrasco de domingo. Na realidade eu só não
queria pensar em tudo isso.
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como... Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...
Álvaro
de Campos – F.P.