29/02/2012

Fundamental


Questões fundamentais vem me perturbando nos últimos tempos. São questionamentos básicos e indispensáveis, porém facilmente suprimidos pelo pensamento tradicional e doutrinas religiosas e filosóficas. Acordar pela manhã e ter plena certeza da morte iminente e inevitável me deprime, mesmo sabendo que ainda existe muito tempo para tal morte chegar se pensarmos na expectativa de vida atual mas da mesma forma penso que tempo algum me basta. E ainda sim tenho plena consciência de que a vida eterna proposta pelas religiões é o inferno proposto pelas mesmas. Não encontro a paz de alma na vida de hoje e não consigo fazer um prognóstico de encontra-la tão cedo, logo a vida eterna só traria ainda mais desassossego. Queria mesmo me prender a doutrinas bonitas cheias de fé e esperança, mas a realidade ao meu redor não me permite. A consciência adquirida não pode ser esquecida e muito menos ignorada.
A agonia de pensar na morte de certa forma me conforta por finalmente ter chegado na tão desejada paz, mas me entristece por motivos óbvios. Chega a ser nauseante. Pudera eu viver a vida no meio das ilusões cotidianas e satisfações mundanas. Fui inundado por pensamentos positivos dia desses, já que essa é a única vida que tenho, devo aproveita-la ao máximo, tirar da vida sua essência, sua alma, mas eu vejo a vida pela ótica de ser apenas vida, de ver as coisas sem as mascaras sentimentais que nós mesmos impomos as coisas. Como Caeiro, penso que a Natureza é apenas o que tem que ser, sem que haja qualquer significado misterioso nisso tudo. O Universo todo me atrai pelo desconhecido e não pelas possibilidades. Contemplar estrelas, como fiz no Bonete, não traz aquela felicidade diante da beleza que isso é, mas traz ainda mais vazio diante da pequenez da alma humana. Não que não seja linda a nossa via Láctea. Mas ela só é um emaranhado de estrelas, um lençol fino que nos cobre.
Pudera eu acreditar no amor. Ah! Esse amor que eu vejo a pessoas jurarem, nada mais que uma farsa para tapar as agonias e o já citado vazio da alma. Amor não existe, nem as tais provas de amor como dizem por ai. Acredito sim na paixão, essa sim existe, devasta, destrói, transborda tudo, mas se vai da mesma forma que veio e ai deixa os seus rastros de destruição. E são nos momentos de destruição em que se deve fazer as reflexões mais profundas, as incursões mais perigosas no seu mais intimo.
Ouvi uma frase esses dias de uma garota: Não é uma questão de fidelidade, é lealdade. Foi a frase mais sincera que já ouvi sobre os relacionamentos humanos. E isso me confortou. A posse do outro estabelecida pelas regras da sociedade atual não fazem sentido da forma como são. Não há motivos de jurar amor ao outro senão por respeitar e ter a consideração pelos sentimentos do outro. Mas a fidelidade é uma ilusão. Assim como a garota não acredito na fidelidade, acredito na lealdade, no companheirismo, no respeito e não em um juramento divino baseado em uma castração do que realmente somos.
E ai me pego perguntando o porquê de seguir fazendo as coisas como sempre faço, buscando objetivos que não fazem qualquer sentido. Levantando todos os dias para ir ao trabalho que já nem sei se gosto mais, estudando coisas que já não servem mais para nada, estando com pessoas simplesmente para esconder a solidão. Solidão essas que nunca me deixou sozinho (Abu, seu filho de uma puta). E sei que tudo isso nada mais é que um artifício de autoproteção para o completo vazio da alma. É melhor enganar-se do que olhar para dentro de si.
Definitivamente é um aglomerado de questões básicas e sem respostas. Queria ser como os outros e ficar discutindo futebol, big btother, novela e o caralho a quatro. Queria casar, ter filhos, ser um gerente frustrado, ter o carro do ano, receber a família e os amigos para aquele churrasco de domingo. Na realidade eu só não queria pensar em tudo isso.

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como... Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


                                                           Álvaro de Campos – F.P.

09/02/2012

Prefácio da Saudade


Todas as saudades se foram, menos uma. Não é algo ruim, muito menos algo bom. Somente é. Assim como a vida e a morte essa saudade que sinto, apenas é. Diferente da vida e da morte eu poderia evitá-la e confesso que tentei, mas falhei. Hoje não me dói, se é que algum dia doeu. O problema todo é a confusão que gera e a mistura que se faz com outras agonias. Vira carência, solidão, tristeza, etc. Mas a racionalização tem seus métodos e agora consigo olhar e separar a saudade dos demais sentimentos.
Não é saudade de alguém, nem de lugares, de situações e de musicas. Não é saudade de abraços, de risadas, de beijos e de carinhos. Mas é uma saudade com cheiros, toques, risos, olhares. É uma saudade de mãos dadas. A grama molhada. O cheiro da terra. A preguiça. Minha saudade é um domingo de sol em um outono morno.

31/01/2012

Paz

Não há paz dentro dessa alma inquieta.
Não há satisfação dentro dessa pobreza toda.
Um conformismo claro,
Um choro contido.

Arrependimento ao ver o barco partir.
Sorriso leve por ver as pessoas caminharem.
A palavra que não foi dita.
O adeus que nunca existiu.

O sol lá fora,
Cá comigo o frio.
Desejos, sonhos, delírios.
Não há nunca de haver paz.

Silencio, apenas silencio.
Um vazio enorme.
Pensamentos jogados a esmo.
A perda da perspectiva.

17/11/2011

To the valley below


Ela era uma musica do Bob Dylan. Não qualquer música, não todas as músicas, mas uma musica. Pode ser Mr. Tambourine Man, Like a Rolling Stone, Hurricane, Don’t Think Twice it’s all Right, mas sempre me vem a cabeça One More Cup of Coffee.
Seus cabelos castanhos, longos, queimados pelo sol. A pele morena, sempre úmida, de um veludo macio. Aquele sorriso de vergonha, os olhos de sono. Submersa em pensamentos que julgo densos. Perdida dentro de livros, da poesia, da magia das palavras. Jogada na areia fina que lhe prega ao corpo, dando tom de dourado a perfeição de suas curvas.
É sempre árido perto dela. É abafado, como um bar de beira de estrada. Descalça pelo chão quente, pisando de ponta de pé, correndo leve com esse sorriso de sono e os olhos de preguiça.
Sua inocência encanta os desavisados. Sua imprudência irrita os de alma velha. Trajando aquele vestido largo que mostra mais do que devia e menos do que meus olhos querem ver. A imagem sempre vem como o asfalto sob o sol de verão, tremendo e embaçando.
Ela não é um folk, é só uma musica do Bob Dylan, que canto quando boto meu pé na estrada.

27/09/2011

No balcão do Buteco


Momento política aqui no blog. A discussão do momento é o novo imposto para a saúde, a tal da CSS. Ai papo de Jornal Nacional pra lá, notícias nas internets de cá e parece que o que falta são 45bilhões de reais em investimentos anuais na saúde. Ai fala-se em imposto, em cotas fixas de investimentos e por ai vai. Só comentando mesmo para resumir e ambientar quem for ler isso. Mas ai eu pensei em fazer uma conta de padaria aqui. Os dados estão por ai na internet, e digamos que não são lá muito confiáveis, mas também não são absurdos.
Vamos pensar nos custos mensais de um político no Brasil. Isso falando em salário e algumas mordomias que estão lá pra todo mundo ver, não vamos considerar desvios e corrupções. Lembrando que nesse valor está a verba para contratação de acessores. Bom, um vereador custa 115mil (em SP). Um deputando Federal, outros 115mil. Já o deputado estadual, somente 100mil. O senador 120mil. Presidente e governadores eu vou colocar ai 150mil, já que não achei fontes confiáveis na internet, vamos seguir mais ou menos os valores anteriores, ainda mais que eu to fazendo uma conta de padoca.
Ai vale lembrar que nossos queridíssimos políticos têm 15 salários anuais, então vamos dizer que toda a ajuda de custo também seja em 15 parcelas.
Bom, nosso país tem 1 presidente e seu vice, 27 governadores e seus vices, 81 senadores, 513 deputados federais, 965 deputados estaduais, 5564 prefeitos e seus vices e 60320 vereadores
Bom, fazendo as contas ai, chega-se em um valor de R$91.517.700.000,00, ou noventa e um bilhões quinhentos e dezessete milhões e setecentos mil reais!
Ou seja amiguinho, se cada político no Brasil custasse metade do que custa, e estamos falando oficialmente, a questão da saúde seria resolvida facinho facinho. Olha ai, continha de padaria.
Se alguém que ler o texto encontrar algum erro, favor me avisar. Confesso que eu quero achar um erro nessas contas.

28/08/2011

Despertar

Abriu os olhos devagar e notou o sol inundar o quarto. Sentiu o corpo dela junto ao seu, quente, branco. Instintivamente beijou-lhe no pescoço, quase no roto e ela arrepiou-se ainda dormindo. Ele deu um sorriso leve. Tentou tirar o braço de debaixo da cabeça dela, não queria acordá-la, mas viu seus olhos se abrirem tão lentamente quanto os seus ao também acordar.

Em um instante ela virou e colocou seu nariz a menos de um centímetro do dele, e como uma criança pegou o nariz dele entre o indicador e o dedo médio e disse com voz de sono “Bom dia!”.

Ele sentou na cama e virando pra ela disse “melhor você ir embora”, ao que ela respondeu com uma gargalhada e um “Meu! Eu estou na minha casa. Você que tem que ir embora”. De susto se pôs em pé. Estava mesmo no quarto dela, e nem sequer notou que não estava na própria casa. Sentiu-se zonzo. Rapidamente vestiu suas roupas amarrotadas enquanto ela fumava um cigarro despreocupadamente enrolada nos lençóis brancos. Ela adorava os malditos lençóis brancos.

Já vestido, disse a ela “isso não deveria ter acontecido”. E saiu do quarto.

Na porta ela o interpelou “Você que me procurou!”.

Ele já descia as escadas quando ela gritou “Você é Filho da Puta!”.

“E você é uma vaca” foi a única coisa racional que ele pode responder.

27/05/2011

Curvas



Se você pretende saber quem eu sou
Eu posso lhe dizer
Entre no meu carro na Estrada de Santos
E você vai me conhecer
Você vai pensar que eu
Não gosto nem mesmo de mim

E que na minha idade
Só a velocidade anda junto a mim

Só ando sozinho e no meu caminho
O tempo é cada vez menor
Preciso de ajuda, por favor me acuda
Eu vivo muito só

Se acaso numa curva
Eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo, corrijo num segundo
Não posso parar

Eu prefiro as curvas da Estrada de Santos
Onde eu tento esquecer
Um amor que eu tive e vi pelo espelho
Na distância se perder

Mas se amor que eu perdi
Eu novamente encontrar, oh
As curvas se acabam e na Estrada de Santos
Não vou mais passar
Não, não vou mais passar, oh

Eu prefiro as curvas da Estrada de Santos
Onde eu tento esquecer
Um amor que eu tive e vi pelo espelho
Na distância se perder

Mas se amor que eu perdi
Eu novamente encontrar, oh, oh
As curvas se acabam e na Estrada de Santos
Eu não vou mais passar
Não, não, não, não, não, não

Na Estrada de Santos as curvas se acabam
E eu não vou mais passar
Não, não, não,
Oh, na Estrada de Santos as curvas se acabam

Daquelas músicas que fazem parte da trilha sonora da minha vida.
Pq as vezes eu passo reto nas curvas...